A Revolução Republicana de 1910

Intervenção de Frederico Pereira
Presidente da Assembleia Municipal

Apesar das diversas apreciações, necessariamente subjectivas, do que foi e representa a Revolução Republicana do princípio do século passado, 5 de Outubro de 1910 é, sem dúvida, todos estamos de acordo, uma data historicamente importante de grande significado para o Povo Português.

Radicará nessa constatação, a unanimidade que existiu na Assembleia Municipal do Barreiro que, em dois momentos, considerou primeiro que se deveria comemorar, com a dignidade que a data merece, o Centenário da Revolução Republicana e, num segundo momento, que se concretizasse uma sessão comemorativa, que hoje aqui se cumpre.

Caberá lembrar que, tratando-se de um momento histórico, que se concretizou finalmente em 5 de Outubro, a Revolução Republicana corresponde a um longo processo e a um amplo movimento de descontentamento e protesto popular.

Realizadas as revoluções liberais de 1820 e 1834, na sua época, também elas, marcos importantes no desenvolvimento histórico de Portugal, em meados do século XIX, a monarquia, com os seus vícios e insuficiências, já se apresentava, como estrutura politica de poder, anacrónica e desajustada às necessidades, não correspondendo nem respondendo às justas aspirações de amplas camadas da sociedade portuguesa.

No plano político, mantinham-se sobrevivências de organização feudal com uma desajustada influencia e privilégios da nobreza e do clero, enquanto novas camadas da burguesia e do povo, cada vez mais numa nova relação com os meios de produção, com a sua propriedade e desenvolvimento iam tendo importância crescente, sem correspondência na sua intervenção política na área do poder.

A Revolução democrática, a refutação do catolicismo, a ideia de pátria e de nação, conjugadas com dificuldades crescentes do povo, assumiam importância crescente no ideário vigente e criavam as condições para a exigência de uma alteração profunda, a que os ideais republicanos procuraram responder.

As novas ideias, correntes e movimentos, influenciados por Comte, Darwin ou Marx, entre outros, propiciavam uma nova abordagem da realidade e, consequentemente, novas respostas.

Em Portugal, a cultura do patriotismo, a influência dos meios de comunicação social de massas e o diagnóstico da situação, impeliam uma elite intelectual, que culpava a monarquia de todos os males, a organizar-se no sentido do seu derrube.

Os Partidos monárquicos, que se alternavam no poder, como duas faces da mesma moeda, reféns de uma concepção de poder clientelista baseada na influência dos caciques, não só não respondiam, alheios à realidade, como agravavam a situação do País.

No plano económico e financeiro a situação foi-se agravando sucessivamente, atingindo níveis insuportáveis.

À influência crescente dos bancos, companhias e capitalistas na administração e governo do Estado iam correspondendo, cada vez mais, dificuldades financeiras que conduziriam a uma dívida pública do Estado de nível astronómico, tornando Portugal fortemente dependente dos seus credores externos.

Meia dúzia de famílias, os Burnay, os Tottas, os Monteiros, os Centenos, dominavam o sistema financeiro e a incipiente indústria, ao mesmo tempo que grassava a corrupção e se assistia a inúmeras falências de empresas e ao aumento do desemprego.

Em resumo, Portugal era, nos momentos finais da monarquia, um país economicamente atrasado, essencialmente agrário, com uma indústria incipiente, uma elevadíssima taxa de analfabetismo e um baixo nível de vida, em que centenas de milhar de portugueses procuravam na emigração o que lhes era negado no seu País.

Sendo um País colonizador, Portugal era, simultaneamente, um país dependente, sujeito ao domínio estrangeiro, factores que estrangulavam o seu desenvolvimento.

As degradantes condições de vida do povo, sujeito a salários baixos, longas jornadas de trabalho e a uma ausência de políticas sociais, faziam realçar a decadência e o parasitismo do regime monárquico e a exigência do seu derrube.

O processo de industrialização que se verificou nos últimos anos da monarquia e o crescimento correspondente da classe operária, foram acompanhados do desenvolvimento da luta social e contribuíram para a criação das condições que tornaram possível o triunfo da Revolução Republicana de 1910.

Crescentemente desacreditada e incapaz de enfrentar os graves problemas económicos e sociais do País, a Monarquia responde com a repressão ao desenvolvimento da luta dos trabalhadores e da oposição republicana que, por sua vez, opta pela conquista do poder pela força das armas.

Em 1890, em reposta ao ultimato inglês e face à cedência da monarquia perante os interesses ingleses e na falta do apoio alemão antes prometido, se inicia um profundo movimento de descontentamento em relação ao Rei, à família real e à instituição da monarquia, vistos como responsáveis pelo alegado processo de decadência nacional.

Os republicanos, que já em 1880, a propósito das comemorações camonianas, tinham encabeçado a ideia de regeneração nacional, souberam capitalizar este descontentamento, iniciando um crescimento e alargamento da sua base social de apoio, que acabaria por culminar no derrube do regime.

Em 31 de Janeiro de 1891, registou-se um primeiro levantamento militar que embora tenha fracassado foi a primeira grande ameaça sentida pelo regime e um prenúncio do que haveria de acontecer quase duas décadas depois.

Desde então, e apesar da repressão, o movimento não deixou de se manifestar, culminando com a proclamação da República, em 4 de Outubro de 1910, em vários Municípios da Região de Lisboa e da Margem Sul, entre eles o Barreiro, e finalmente em 5 de Outubro, em Lisboa.

O Barreiro, muito justamente, apelidado de terra de luta e de liberdade, esteve, desde a primeira hora, na primeira linha da luta pela República e com a promessa de liberdade e justiça social.

Saudando, todos os que, anónimos no seu combate, contribuíram para esta etapa do nosso desenvolvimento, não posso deixar de referir, apenas como exemplo do empenhamento do povo do Barreiro, que, em Outubro de 1910, os trabalhadores corticeiros estavam em greve há um mês, exigindo que não se exportasse a cortiça em bruto, antes fosse trabalhada em Portugal, assim aumentando o seu valor.

Este facto, para além de evidenciar a consciência dos trabalhadores barreirenses, até teve o efeito de contribuir para os momentos finais da Revolução, fixando tropas no Barreiro em missão de “vigilância e manutenção da ordem”, impedindo-as de constituírem eventuais reforços contra os revoltosos.

Saudemos, pois, todos os que contribuíram para que se concretizasse a Revolução Republicana de 1910.

Barreiro, 4.Outubro.2010

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